sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Aves em boa forma.

Aves em boa forma
Corujas e gavião passam por treinamento no Pará para caçar melhor, manter o peso e ter saúde


O gavião-caboclo (Buteogallus meridionalis) é uma das aves que recebem treinamento no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (fotos: Pedro Henrique Cruz).
Já ouviu falar em falcoaria? Esse é o nome de uma técnica muito antiga, usada para adestrar aves de rapina, como corujas, falcões, águias e gaviões. Além de tornar esses animais excelentes caçadores, a falcoaria ainda pode ajudá-los a se recuperar de doenças e de lesões, entre vários outros benefícios. Por isso, tem sido usada em aves que vivem no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi.

“O animal que passa por esse treinamento fica menos estressado e mais tolerante à presença humana. Até as penas ganham mais brilho!”, conta o estudante de biologia Marcos Cruz, que atualmente usa a falcoaria para treinar, em parceria com o também futuro biólogo Felipe Furtado e com a estudante de veterinária Carmen Pereira, um gavião-caboclo e duas corujas no Pará.

O gavião tem o que se chama de hipocalcemia: a falta de cálcio no sangue, doença provavelmente provocada pela alimentação inadequada nos primeiros meses de vida, quando a ave viveu em cativeiro ilegal. Já as corujas — uma delas chamada Buba — não possuem problemas de saúde, mas chegaram ao Parque Zoobotânico aos três meses de vida. Com tão pouca idade, dificilmente sobreviveriam sozinhas na natureza, já que não sabiam caçar. Algo que a falcoaria pode ensinar, assim como trazer outros benefícios.

Quantos exercícios!

O estudante de biologia Marcos Cruz e a coruja murucututu conhecida como Buba.
Por funcionar como uma ginástica para aves — ao exercitar todos os músculos do animal —, a técnica ajuda na recuperação de doenças e lesões, além de auxiliar no controle de peso, evitando que aves que vivem em cativeiro se tornem obesas.

O treinamento é feito em cinco etapas. Na primeira, o adestrador — também chamado de falcoeiro — leva alimento, em uma luva, diretamente ao bico do animal. Depois, a ave precisa voar até o falcoeiro para pegar a comida. A seguir, uma isca feita de couro e que imita um bicho de verdade é apresentada, o que estimula os instintos de caça e desenvolve os movimentos da ave. Nas duas últimas etapas, o bicho caça uma presa real. Em geral, as aves de rapina gostam de se alimentar de insetos, ratos, lagartos, serpentes, aves e anfíbios.

Não há um prazo determinado para o fim do treinamento, pois cada animal tem seu próprio tempo de recuperação. No entanto, o esforço é grande. Para você ter uma ideia, o gavião e as duas corujas que estão sendo adestradas atualmente no Museu Paraense Emílio Goeldi chegam a dar entre 30 e 50 voos por treino!

Preconceito, não!
Mas você sabia que, além de fazer bem aos animais, a falcoaria ainda pode ser educativa? “Alguns treinamentos são feitos perto dos visitantes. Assim, os falcoeiros têm a chance de passar informações sobre as aves de rapina e contribuir para o fim do preconceito em relação a elas”, explica Marcos Cruz, lembrando que muitas pessoas maltratam injustamente corujas por causa da crença popular de que o seu canto é sinal de mau agouro. “As corujas urbanas, porém, ajudam a controlar pragas como ratos e pombos”, explica o estudante de biologia. Eis aí uma boa razão para garantir a saúde de aves de rapina como essa, você não acha?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Como funciona a bala que explode na boca?



Descubra a ciência que existe por trás dessa gostosura!



De laranja, morango, chocolate... Huumm! As balas são tão gostosas... Mas, como qualquer guloseima, as balas são para nos deliciar uma vez ou outra. O excesso, a gente sabe, pode provocar cáries ou causar obesidade. Mas será que existe ciência nas balas? Pode apostar que sim! Agora, por exemplo, você vai saber sobre o tipo que explode na boca.

Bala gostosa e explosiva, alguém aí conhece? Pois vale a pena juntar umas moedinhas para experimentar. Elas não causam qualquer dano à saúde e, na verdade, parecem mais um granulado do que uma bala. O segredo da sua fórmula são cristais de açúcar que guardam bolhas de gás carbônico sob alta pressão.

Mas a bala explosiva contém, ainda, outros ingredientes. Ela é produzida a partir da combinação de alguns açúcares, como sacarose e lactose ou sacarose e xarope de milho. Sua fórmula ainda leva amido, gelatina ou goma – como ágar, alginato, pectina –, ingredientes que ajudam a aumentar a quantidade de gás carbônico aprisionado, além de acidulantes, flavorizantes e corantes. Quanto nome esquisito!

Bom, mas o importante é que, na fábrica, tudo isso é misturado e aquecido sob alta pressão, até que os açúcares passem do estado sólido ao estado líquido. Neste ponto, é que o gás carbônico é adicionado à mistura. Depois, o líquido esfria, ainda sob alta pressão, para deixar as bolhas de gás carbônico aprisionadas no interior do grande torrão de açúcar que se formou.

Quando a pressão é liberada, o tal torrão de açúcar se parte em pedaços bem pequenos, como um granulado. As bolhas de gás carbônico continuam no interior dessas minibalas, que são vendidas em pacotinhos.

Abra um pacotinho desses e deixe o doce entrar em contato com a umidade da sua boca. O açúcar vai se dissolver e... Ploft! Ploft! Ploft! Você vai sentir o estouro das bolhas. O mesmo efeito pode ser conseguido se a bala for mastigada.

A fórmula dos cristais de açúcar explosivos já pode ser encontrada em outros doces, como chicletes e chocolates. Quando puder provar um docinho, experimente uma dessas delícias explosivas!


A primeira bala explosiva foi criada em 1956, pelo químico William A. Mitchell, da empresa General Foods e foi comercializada nos Estados Unidos com o nome de Pop Rock.

Lesmas, caramujos e caracóis.

Você sabe qual a diferença entre esses animais?


(Ilustração: Ivan Zigg).

Todos os três levam a vida devagar. Estamos falando das lesmas, dos caramujos e dos caracóis. Mas você é capaz de distinguir um bicho do outro? Se respondeu “não”, saiba que não está sozinho. Leitora da CHC, a Lucia Helena Ramos é contadora de histórias. Após apresentar uma trama em que o personagem principal era um caracol, ela ouviu a pergunta: qual a diferença entre esse animal, as lesmas e os caramujos? Sem saber explicar, enviou a dúvida para a CHC e nós fomos atrás da solução!

“Lesma, caracol e caramujo são nomes populares atribuídos aos moluscos que pertencem ao grupo dos gastrópodes”, explica a bióloga Inga Veitenheimer Mendes, do Centro Universitário La Salle, do Rio Grande do Sul. Vamos conhecer, então, algumas características de cada animal, para reconhecê-los? Só fique esperto porque, como estamos falando de nomes populares, o bicho que é chamado de lesma em uma região do Brasil pode ser conhecido como caracol em outra e assim por diante!

O corpo das lesmas europeias é cilíndrico, ao contrário do que acontece com as espécies nativas do Brasil (foto: Paul J. Morris).


LESMAS

Em geral, são moluscos sem concha, encontrados no solo, embaixo ou sobre a vegetação rasteira, em hortas, jardins ou matos. No Brasil, há lesmas que são nativas do nosso país e outras que têm origem na Europa: essas, aliás, devem ter chegado por aqui na época do descobrimento, há mais de 500 anos! As lesmas “brasileiras” têm o corpo achatado, enquanto o das europeias é cilíndrico, entre outras diferenças (as européias, por exemplo, apresentam uma concha reduzida, transparente, em forma de unha, encoberta por uma dobra de pele, que parece uma corcunda. As brasileiras, não). E você sabia que, no mar, também há lesmas? Algumas não apresentam concha, enquanto outras, como a lebre-do-mar, têm uma bem pequena, encoberta pela pele. Há, ainda, as que são coloridas e brilhantes!

CARACÓIS E CARAMUJOS

Concha de um molusco do gênero Megalobulimus (foto: Andrea Scauri).

São os moluscos gastrópodes com concha. Encontrados em ambientes terrestres e de água doce, os caracóis, em geral, têm conchas mais frágeis e leves. Já os caramujos, normalmente, são moluscos gastrópodes que vivem no mar e têm conchas maiores, mais espessas e pesadas. O Adelomelon becki, por exemplo, é um dos maiores caramujos da costa brasileira: sua concha pode atingir 60 centímetros de comprimento! Já os moluscos do gênero Megalobulimus, embora sejam terrestres, quando adultos costumam ser chamados de caramujos. Nativos do Brasil, eles têm uma concha espessa, que chega a medir mais de 10 centímetros de comprimento.


Mara Figueira
Ciência Hoje.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Menino de dois anos é comparado a Einstein em teste de QI

Quem vê o menino brincando no jardim pode até não enxergar nada de anormal. Só que ele é um daqueles casos em que as aparências enganam.

Loirinho, olhos azuis, 2 anos e meio de idade, o xodó do papai e da mamãe - corujas assumidos que desde cedo enxergaram qualidades ''excepcionais'' no menino. Aos 4 meses, os pais acharam que Oscar já ria das partes engraçadas das historinhas que ouvia. Com um ano e meio, Oscar teria declamado o alfabeto inteiro. Segundo a mãe, nessa época ele já dominava um vocabulário de 600 palavras - cerca de 30 vezes mais do que o normal. Quando tinha apenas um ano e oito meses de idade, Oscar acordou durante a madrugada e chamou pelos pais. Eles pensaram que o filho estava com fome. Mas o que ele queria era conversar sobre o Império Romano. Foi aí que os pais perceberam que tinham um filho pra lá de especial. A mãe, que é formada em ciências médicas, e o pai que estudou ciências da computação, contam que foi uma surpresa atrás da outra. Antes dos 2 anos, Oscar já explicava, detalhadamente, como nascem os pinguins e como é formado o sistema solar. Também sabia de cor os nomes de dezenas de pássaros britânicos. “Ele fala sobre tudo e fala muito rápido”, confirma o pai, sem esconder o orgulho que sente do filho. Quem vê o menino brincando no jardim pode até não enxergar nada de anormal. Só que ele é um daqueles casos em que as aparências enganam. Pelo menos é o que atestou o Mensa, o conceituado instituto internacional de avaliação mental. Em um teste de QI (que avalia o nível de inteligência), Oscar fez 160 pontos, a mesma pontuação de gênios como Albert Einstein, por exemplo. “O QI médio da população é sempre 100. Existe uma banda de variação entre 85 e 115. Então, a grande maioria dos indivíduos de uma população vai ficar entre 85 e 115. Acima desse valor já é considerado um QI que tende a ser alto”. O teste aplicado em Oscar é especial para crianças da idade dele. Perguntas e respostas simples e provas de raciocínio. O que surpreendeu os pesquisadores do Instituto Mensa não foi só a agilidade do menino, mas seu poder de organizar as idéias e até formar opinião própria. No jardim, eu pergunto o que ele espera ganhar no Natal. Oscar diz que só não quer uma árvore enfeitada porque é contra o corte de árvores... Mas, então o que quer ganhar do Papai-noel? “Quero amigos, outras crianças com quem eu possa brincar e falar”, conta. A mãe de Oscar explica: “o menino se sente deslocado entre os amiguinhos da mesma idade. Outro dia, ele comentou na escolinha que não gostou do final do filme 'A bela e a fera’ porque a fera virou um ser humano. Ele preferia a fera como fera. Deu pena. Oscar se sentiu ignorado”. “Uma das dificuldades que a criança de QI alto pode encontrar é de integração com seus pares da mesma faixa etária, já que os seus interesses podem não ser compatíveis com o dessas crianças da mesma faixa etária. Não só isso, mas sua capacidade de compreensão de determinadas cenas, de determinados acontecimentos pode ir além das outras crianças, o que pode causar inclusive desavenças”. É por isso que os pais estão preocupados. Eles sabem que têm nas mãos uma missão delicada. Criar Oscar como ele é, ou seja, um menino especial. Garantir que ele tire o máximo proveito da inteligência que tem e que seja feliz, na infância e também quando se tornar um adulto.

sábado, 17 de outubro de 2009

Aroeira é utilizada no pós-parto e na higiene íntima da mulher

Árvore tem tradição na medicina popular do Nordeste. Horta medicinal ajuda brasileiros a trocar remédios químicos por naturais.

As civilizações mais antigas já buscavam na natureza os remédios para curar suas doenças. Mas a imensa farmácia que brota na terra não oferece matéria-prima apenas para fazer pomada, xarope, tintura, elixir, sabonete. Em verso, fica mais fácil ensinar que a aroeira do sertão cura ferida e inflamação. E, mais do que uma rima, essa é uma verdade científica.

A aroeira foi a primeira árvore a ganhar versos. A musa inspiradora é alta, forte e tem uma tradição importante na medicina popular do Nordeste: é uma das plantas de uso mais frequente e mais antigo entre as mulheres. Utilizada na higiene íntima e no pós-parto, a aroeira ganhou amparo científico e hoje os médicos já

Da poderosa planta são extraídos dois medicamentos. "Um é um xarope, que nós chamamos de elixir. O segundo é uma pomada para problemas ginecológicos", diz o doutor em agronomia Sérgio Horta Mattos, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Outro remédio cantado em verso e prosa é o alecrim. Da folha é extraído um óleo essencial, onde está concentrado o princípio ativo: o timol, um poderoso antisséptico natural. A planta é usada na fabricação de três produtos. "Fazemos um antisséptico bucal; um sabonete, que serve para problemas de pele; e também uma tintura, que tem função antisséptica para ferimentos", conta Sérgio Horta Mattos. O alecrim combate uma série de problemas de pele e outros que incomodam bastante. É bom para acabar com a frieira e até o chulé. "Pano branco, impinge, frieira, mau cheiro dos pés, das axilas, para acne, seborreia, caspa", descreve o doutor em agronomia. Aroeira, alecrim, confrei. O povo já sabia e a ciência só confirmou. Hoje as mudas das 40 plantas mais usadas na medicina popular são repassadas para cerca de 50 Farmácias Vivas no Ceará, uma retribuição aos ensinamentos colhidos em aldeias, quilombos, junto a rezadeiras, curandeiros, aos moradores mais antigos do interior. "A informação era sistematizada, e as plantas eram selecionadas para estudo", diz a engenheira agrônoma Francisca Simões Cavalcanti, da UFC. Professora da UFC e doutora em química de produtos naturais por profissão e poeta por vocação, Mary Anne Bandeira, há mais de 20 anos se dedica a estudar e a propagar o uso das plantas medicinais. Ela coordena o Projeto Farmácia Viva, que leva medicamentos naturais e ensina o poder das plantas aos cearenses. "Nós cientistas aprendemos muito mais do que ensinamos", avalia a cientista, que teve um excelente professor. É impossível falar sobre plantas medicinais no Ceará e no Nordeste brasileiro sem mencionar um pioneiro, um semeador de conhecimentos extraídos da natureza desde os anos 60: o professor Francisco José de Abreu Matos deixou para sempre o nome gravado entre os grandes pesquisadores que souberam aliar a ciência à sabedoria popular. O professor Matos morreu há um ano. Da terceira geração de farmacêuticos, ele plantou a semente das Farmácias Vivas que hoje estão em 28 municípios do Ceará e servem de modelo para o país. O horto matriz, único banco de plantas medicinais do país, também é herança do professor Matos. No local, cada planta tem a certificação botânica: a garantia de que foi cientificamente identificada e os efeitos das substâncias ativas foram comprovados. "Eu costumo dizer que o horto matriz foi o casamento feliz entre o saber popular e o saber científico", constata Francisca Simões Cavalcanti. A mais recente Farmácia Viva foi implantada em uma das comunidades mais pobres da capital cearense, no bairro Jangurussu, periferia de Fortaleza. As crianças cuidam dos canteiros, onde cerca de 800 famílias da região podem buscar as plantas com efeitos medicinais. Muita eficácia e baixíssimo custo. Os moradores vibram com a novidade. "O remédio da Farmácia Viva é muito melhor do que o da farmácia comum porque a gente faz com as próprias mãos e dá resultado", comenta a dona de casa Maria Lucimar Teixeira. Em Horizonte, município da Região Metropolitana de Fortaleza, as plantas medicinais encontraram um terreno fértil. Os canteiros se multiplicam por quatro hectares, onde crescem dezenas de espécies diferentes. A matéria-prima dá e sobra para manter o pequeno laboratório. No local são fabricados 14 tipos de produtos fitoterápicos. Todas as fórmulas foram desenvolvidas pela UFC. Mas os pesquisadores enfrentam um novo desafio: quando a ciência comprova o poder das plantas, a natureza mostra que está seriamente ameaçada. Os pesquisadores já deram o sinal de alerta: o país com uma das maiores biodiversidades do mundo corre o risco de ver desaparecer de suas matas algumas das principais plantas medicinais. É o caso da aroeira, que já foi muito comum por todo o semiárido brasileiro, principalmente na Caatinga, e hoje está em extinção. A fama da árvore – de madeira pesada e resistente, muito usada na construção de casas e na fabricação de móveis – foi como uma sentença para a aroeira. Se a árvore sumiu das matas, o remédio é plantar. Agrônomos foram convocados para estudar o ciclo da aroeira e ensinar a cultivar as mudas. "Nós desenvolvemos uma tecnologia que não precisa de duas coisas. Primeiro, esperar que a aroeira vire uma árvore, o que demora cerca de 20 anos. Segundo, não vamos matar a planta de forma nenhuma", revela Sérgio Horta Mattos. Os cientistas descobriram que o princípio ativo encontrado na entrecasca da aroeira é o mesmo que está no broto da planta. "Essas substâncias têm um poder antiinflamatório e adstringente muito grande. E essas mesmas substâncias estão na mesma concentração do broto", diz Sérgio Horta Mattos. E pensar que outras plantas que a ciência nem sequer estudou já estão ameaçadas. "É um exemplo importante. Outras árvores como o cumaru e o juazeiro também estão nesta lista das plantas vulneráveis ou extintas", alerta Mary Anne. Para a aroeira ameaçada depois de tanto socorrer a população, os versos de agradecimento: "Aroeira do sertão, em nossas mãos servistes de experiência. Agora tu és ciência, a ti a nossa gratidão", declama a doutora em química.

Copaíba é nova aposta da medicina fitoterápica

Remédio popular usado contra mais de 50 tipos de doenças, o óleo de copaíba ganhou respaldo científico. Substância combate leishmaniose, câncer, bactérias e inflamações.


Conhecimento cientifico significa aventura no meio da Floresta Amazônica. A Reserva Ducke é uma espécie de laboratório vivo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). No caminho em busca da copaíba dá para entender por que a Amazônia é chamada de farmácia viva. "O principal uso do breu é para dor de cabeça. Eles fazem um tipo de incenso e usam para dor de cabeça", conta o pesquisador Valdir Veiga Jr., da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O leite-de-amapá cura até tuberculose. É docinho e tem gosto de leite. Mas e a copaíba? Depois de três horas, chega-se a uma das matrizes. "Atualmente temos um método de extração em que furamos até o centro da árvore, coletamos o óleo e depois colocamos um cano de PVC. Fazemos uma rosca em cada uma das extremidades e acoplamos na árvore. Assim, na próxima coleta, não precisamos furar de novo. Isso protege a árvore contra a entrada de agentes causadores de doenças, como fungos e cupins", explica a pesquisadora Raquel Medeiros, do Inpa. As copaibeiras estão dispersas pela mata, mesmo em uma área onde a espécie é abundante, as árvores podem estar até um quilômetro distantes umas da outras. O óleo produzido lá dentro é um mecanismo de defesa contra pragas naturais, como cupim. É como se a árvore fabricasse o próprio remédio. Entender a dinâmica das copaibeiras, como elas crescem e se desenvolvem, é o primeiro passo para preservar a espécie. Afinal, ela vem demonstrando ser uma importante matéria-prima para a ciência. "Temos encontrado substâncias muito interessantes nas cascas, como o ácido betulínico, que está em fase de testes para o tratamento do vírus HIV", revela Valdir Veiga Jr. Remédio popular usado contra mais de 50 tipos de doenças, o óleo de copaíba ganhou respaldo cientifico. Na Ufam, o professor Valdir Veiga Jr. coordena um grupo que estuda há dez anos os benefícios desse óleo valioso. "Já conseguimos comprovar atividade contra leishmaniose. Algumas copaíbas têm efeito antimicrobiano e um dos principais achados foi a atividade anticancerígena", diz. Mas atenção: nem todos os óleos de copaíba são iguais "Os óleos do Rio de Janeiro e de Minas Gerais não têm a mesma composição química e, portanto, não vão ter as mesmas ações farmacológicas do óleo da região de Manaus, por exemplo. Mas existe uma atividade comum a todas as espécies de copaíba: a ação antiinflamatória", explica o pesquisador. Antiinflamatório poderoso que a mãe da funcionária pública Mary Jane Almeida receitava para a filha, que cresceu e começou a receitar para seus filhos. O remédio está logo na cozinha. Afinal, o tratamento é à base de óleo de copaíba. "De manhã, o tempo é muito curto para fazermos várias coisas. Deixamos uma bancada com o óleo à mão para fazer o que tem que ser feito e não deixar de dar a gororoba, como nos chamamos", conta Mary Jane. E para onde vai a "gororoba"? As crianças se animam, mas logo a empolgação acaba. O remédio é eficaz, mas o método um pouco aflitivo: é preciso passar o dedo com uma gaze embebida no óleo na garganta. E nem os adultos escapam. "A copaíba tem um gosto forte, mas não é tão incômodo assim. O pior é a maneira de passar", diz a enfermeira Andréa Rodrigues. "Funciona mesmo. Em dois ou três dias já estamos bem. É ruim, mas vale a pena. Se não valesse, não deixava enfiarem o dedo na minha garganta". Bom para garganta e breve será um poderoso tratamento para os dentes. Pesquisadoras da Ufam descobriram que a copaíba pode ser usada na composição de produtos odontológicos. A proposta das cientistas é usar a copaíba no tratamento de canal que, segundo elas, vai ficar mais eficiente e barato. "O tratamento chega a ficar seis vezes mais econômico", calcula a pesquisadora Ângela Garrido, da Ufam. Com um futuro tão promissor, a copaíba tem conquistado aliados importantes. "Naquele tempo eu não tinha esclarecimento e derrubava muita madeira sem necessidade. Daqui para frente eu quero é preservar", afirma o agricultor Serafim de Abreu. Plantar ao invés de desmatar. Seu Serafim sabe o bem que está fazendo. Ele é voluntário de um projeto do Inpa que incentiva o replantio de árvores em áreas desmatadas de um assentamento agrícola. Sozinho, ele limpa o terreno e espanta lembranças do passado. "Quanto mais eu encher toda a área que eu desmatei melhor para mim", diz. Plantando copaíba junto com a lavoura, em lugar de pouca ou nenhuma sombra, ele tem surpreendido os pesquisadores, que acompanham, entusiasmados, o crescimento das árvores de seu Serafim. Quando chegaram, as mudas tinham pouco mais de um palmo. Três anos depois, estão com mais de 1,80 metro. Na floresta as árvores atingem mais de 30 metros de altura. Só vão produzir o óleo na fase adulta, daqui a cerca de 30 anos. O que levam alguém a gastar tempo e suor em um investimento a tão longo prazo? "Plantar pau-rosa, amapá, copaíba é uma caderneta de poupança para o futuro. Eu pensei muito isso. Não plantei mais porque não tinha muda. Se mais eu tivesse, mais teria plantado", finaliza seu Serafim.

Caju se transforma em poderoso cicatrizante

Película feita a partir do suco da fruta é indicada para queimaduras e feridas. Pesquisadora revela os segredos da medicina popular e ensina quem não tem dinheiro a colher remédios no quintal.


Uma paisagem tropical. Quem olha, percebe logo uma fruta bastante conhecida de todos os brasileiros, saborosa, rica em vitamina C e ferro. Mas o que nem todo mundo enxerga no caju é um poderoso tratamento natural, já confirmado pela ciência, que recebeu o nome de acajumembrana: uma película feita a partir do suco de caju, indicada para queimaduras e feridas.

"Foi um remédio muito bom que purificou e sarou", conta a dona de casa Valdete de Andrade Cavalcanti, que há pouco mais de dois meses mal conseguia andar. Sofria com um ferimento crônico, provocado pelas varizes. Foi diariamente ao hospital, para fazer curativo, durante dois anos, sem resultado. A vida dela mudou depois do tratamento natural. Ela conta que em menos de dois meses o ferimento fechou com a acajumembrana.Além de dona Valdete, outras 45 pessoas já se trataram com a película natural do caju, que tem propriedades cicatrizante, antiinflamatória e analgésica. A acajumembrana foi descoberta pela pesquisadora Salete Horácio da Silva, professora da Faculdade de Enfermagem de João Pessoa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que há mais de 20 anos se dedica a descobrir e comprovar cientificamente o poder das plantas. "Leva de 15 dias a um mês para ficar pronto. É um processo natural da fermentação", diz. O processo tem de ser no laboratório, mas a aplicação é simples. É só cortar a película do tamanho que quiser e colocar em cima do machucado. A membrana do caju vai aderir como uma segunda pele. E o melhor de tudo: não pesa no bolso. "É uma economia estupenda no bolso do usuário, porque uma pomadinha custa entre R$ 15 e R$ 20, e isso aqui praticamente fica de graça", ressalta a pesquisadora, que não pretende ganhar dinheiro com a descoberta. O tratamento é distribuído de graça para as pessoas mais necessitadas, que contribuem doando matéria-prima, ou seja, caju. "Do cajueiro, tudo se aproveita – desde a raiz até a folha mais novinha. A folha mais tenra serve para afta. É preciso fazer uma infusão e bochechar. A raiz serve para problemas intestinais e respiratórios. A casca serve para tosse", descreve a pesquisadora. De chá a pasta de dente, muitas riquezas são extraídas dessa árvore, que já foi muito disputada. "Os índios faziam guerras para ocupar os espaços onde havia mais cajueiros, para festejar, casar, brincar", conta Salete Horácio da Silva. Muito antes de o Brasil ser descoberto, os índios potiguara habitavam o litoral da Paraíba, onde permanecem até hoje e guardam com eles um conhecimento ancestral sobre o uso da plantas medicinais. É esse saber popular, repassado de geração em geração, que despertou o interesse dos pesquisadores que têm muito o que aprender com os índios. E foi justamente em uma aldeia potigara que a professora Salete Horácio da Silva descobriu a acajumembrana, dez anos atrás. Hoje ela retorna uma vez por semana para distribuir remédios caseiros e ensinar princípios básicos de saúde e higiene. Mas, acima de tudo trocar, experiências. "À medida que conversamos com o povo aprendemos e ensinamos", diz a pesquisadora. A casa da índia potiguara Lenita da Silva, mulher do cacique Vicente, funciona como ponto de encontro dos moradores. No local, gente simples, sem condições de comprar medicamentos convencionais, se reúne para aprender com a pesquisadora. "Mastruz é bom para tosse", ensina. A sabedoria desse povo é herdada junto com muitas tradições. O costume é antigo e em quase toda casa da aldeia se encontra um cantinho com ervas medicinais. É como se fosse uma pequena farmácia, sempre ao alcance dos moradores. Dona Lenita põe para secar as plantas que ela mais usa junto à imagem de Jesus Cristo. "A flor da sabugueira é para febre; o feijão-gandu, para tosse; a colônia, para depressão", relata. Quando recebe visita, dona Lenita costuma ir para a cozinha fazer um chá. "Chá de hortelã miúda é bom para digestão e abre o apetite. Eu acredito no efeito curativo das plantas. Se não fossem minhas plantas, não sei o que seria de mim. Planta é um santo remédio, nunca há de faltar na minha casa. Em todo canto eu planto", diz. Para Salete Horácio da Silva, essa comunhão entre os conhecimentos popular e científico virou uma missão de vida. "Eu tenho admiração pelos índios, porque eles amam a natureza. Eu dou minha vida por isso. Eu vivo para isso. Essa é a minha missão", conclui.