terça-feira, 11 de agosto de 2009

100 motivos para se orgulhar da ciência brasileira


Muito prazer. Queremos apresentar a você a elite da ciência brasileira: cem cientistas e instituições científicas fundamentais, do passado e do presente. Para comemorar a edição número 100 da SUPER — cem revistas dedicadas à aventura do conhecimento, desde a primeira, em outubro de 1987 —, decidimos homenagear esses brasileiros. São eles que carregam a lâmpada de Diógenes — a luz do conhecimento — com bom ou mau tempo. Você agora vai conhecê-los melhor. E se orgulhar deles.
Todo mundo sabe que não é fácil ser cientista no Brasil. Todo mundo sabe que falta dinheiro etc. Mas é incrível: os obstáculos estão aí para serem vencidos. Os cientistas brasileiros têm qualquer coisa de heróis. Além de talento e inteligência são homens de vontade de ferro.
Para listar o supertime que você vai ver nas próximas páginas, nós também precisamos de garra. Começamos consultando cientistas das mais diversas áreas. Eles nos mandaram listas dos melhores de sua disciplina. Confrontando as relações, consolidamos um conjunto de 160 nomes ilustres. Difícil, quase impossível, foi reduzir essa lista. Quando por fim chegamos aos cem, havíamos consultado 116 cientistas e mais bancos de dados, bibliotecas, jornais e revistas. Conversamos ou trocamos faxes com quase todos os escolhidos vivos, inclusive com o sociólogo que hoje é presidente da República e com o cardiologista que é ministro da Saúde. Uma trabalheira danada. Uma trabalheira em equipe: sete jornalistas e dois meses de pesquisa.
O resultado é esta seleção de cem homens, mulheres e instituições, distribuídos em treze disciplinas. Alguns desenvolvem trabalhos interdisciplinares mas figuram numa única disciplina apenas para efeito de simplificação.
Importante: esta não é nenhuma lista dos "cem mais", nem um ranking dos mais produtivos. É sobretudo uma homenagem aos cientistas brasileiros e a você, leitor, que nunca os viu reunidos. Você tem aqui mais do que uma lista: tem uma radiografia da ciência brasileira.
Uma radiografia, sim. Esta reportagem fez aflorar as opiniões dos gênios brasileiros sobre sua condição de pesquisadores. E revelou duas constantes. A primeira é a crítica à falta de apoio, de plano estratégico, de verbas e de investimento. A segunda, mais sutil, admite que a ciência nacional, à imagem da própria cultura brasileira, tem sido generosa em teorias e abstrações, porém é pouco prática. Seu desafio seria justamente avançar nas tecnologias aplicadas.
Acima das críticas, contudo, encontramos uma tremenda vontade de progredir. Com ou sem dinheiro. Os cientistas são como o país, que avança, apesar de tudo. Tem problemas, mas quer resolvê-los. E não pára de produzir.
A neurologista Nise da Silveira (AL, 1905) revolucionou o tratamento psiquiátrico de doentes mentais, recuperando suas expressões inconscientes por meio da pintura e da arte. Foi uma das primeiras a perceber que terapia ocupacional poderia virar método de tratamento. Em 1952, Nise fundou, no subúrbio de Engenho de Dentro, no Rio, o majestoso Museu das Imagens do Inconsciente, que hoje reúne 300 000 obras, todas realizadas por pacientes.
Além de bon vivant, Ivo Pitanguy (MG, 1926) é um gênio. Em qualquer canto do planeta onde exista faculdade de Medicina, suas técnicas de cirurgia plástica para mamas e abdome são obrigatórias. Seu livro Aesthetic Plastic Surgery of Head and Body (1981), tornou-se uma bíblia. Pitanguy criou o curso de pós-graduação em Cirurgia Plástica da PUC do Rio e já formou mais de 500 especialistas de várias nacionalidades.
Em 1968, Euryclides de Jesus Zerbini (SP, 1912 - 1993) tornou-se o sexto cardiologista do mundo a realizar um transplante de coração. Nos anos 40, nos Estados Unidos, aprendeu técnicas de cirurgia cardíaca quando ninguém operava o músculo vital. Em 1947, montou o primeiro grupo de cardiologistas do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Em 1975, inaugurou o Instituto do Coração.
O Instituto do Coracão, em São Paulo, é a vanguarda da cardiologia brasileira. Foi o primeiro a fazer implante de ventrículo esquerdo e já fez 10 000 transplantes de rins. Atualmente, desenvolve 98 projetos de pesquisa. O diretor, Fulvio Pileggi, vê progresso evidente na ciência brasileira: "O número de doutores formados pela pós-graduação é crescente e a produção brasileira em revistas internacionais dobrou em dez anos".
O professor Hilton Rocha (MG, 1911) criou em Belo Horizonte o maior centro oftalmológico da América Latina. O Instituto Hilton Rocha realiza 1 500 cirurgias oculares por mês e foi um dos primeiros a fazer transplante de córnea. Criou uma técnica inovadora para aproveitar partes de uma mesma córnea em dois pacientes. Para o diretor Paulo Gustavo Galvão, a pesquisa oftalmológica "avança para transplantar córneas de animais em pessoas".
O Hospital das Clínicas pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e é o maior complexo hospitalar da América Latina. É uma usina de cientistas. Segundo o diretor-clínico, Irineu Tadeu Afonso, o prestígio da Faculdade depende do HC: "Quando não há vínculo como esse, não há também pesquisa médica nem produção de conhecimento, e a escola só pode vender conhecimentos tirados dos livros".
"Agora, que estou no Ministério da Saúde, me sobra pouco tempo para pesquisa", disse à SUPER o ministro Adib Jatene (AC, 1929), autor da primeira cirurgia de ponte de safena do Brasil e criador de técnica mundialmente consagrada para corrigir artérias transpostas em corações de bebês. "A ciência precisa muito de suporte técnico e financeiro", diz o ministro. "A USP gasta todo seu dinheiro em salário. Mas há perspectivas de melhora. A estabilização da economia e o desenvolvimento resolvem isso."
Há dois anos, Sílvia Brandalise (SP, 1944) descobriu um novo tipo de leucemia — a síndrome de Brandalise. Desde 1978, ela dirige o Centro Infantil de Investigação Hematológica Dr. Domingos Boldrini, em Campinas, que montou praticamente sozinha e transformou em instituição de referência mundial no tratamento do câncer infantil. "Hoje, tratamos de 5 000 crianças", conta. Ela acredita que algum dia o Brasil melhorará, embora "por ora, as evidências apontem no sentido contrário".
A cada dez minutos, os tapetes brancos da entrada do Hospital Sarah, em Brasília, são trocados, ritualmente, para sinalizar sua higiene impecável. A instituição é um centro de excelência em doenças motoras — e nada cobra por isso. Tem os melhores laboratórios de análise do movimento e de genética de doenças ósseas do país. Mais: constrói seus próprios equipamentos.Carlos Chagas (MG, 1879 - MG, 1934) descobriu em 1907 as causas, os sintomas e o meio de propagação do mal de Chagas, transmitido pelo mosquito barbeiro, que tem em seu intestino o protazoário Trypanosoma cruzi ("cruzi" em homenagem ao mestre Oswaldo Cruz). Viajou por territórios remotos do Brasil combatendo focos de epidemias e doenças. Provou que o sanitarismo básico melhoraria a saúde de todos.
Em 1904, Oswaldo Cruz (SP, 1872 - RJ, 1917) dirigiu o saneamento do Rio de Janeiro e enfrentou oposição intransigente contra a vacinação obrigatória antivaríola. A imprensa o chamava de "Oswaldo, o Rato" e "General Mata-Mosquitos". O povo não entendeu e se rebelou na famosa Revolta da Vacina. Mas a História lhe deu razão. Transformou o Instituto Soroterápico Federal (mais tarde, Instituto Oswaldo Cruz) na primeira instituição de pesquisa científica da saúde do país . Saneou a Baixada Santista. Formou a primeira geração de sanitaristas brasileiros.
Fundado em 1936 pelo filho de Carlos Chagas, o Instituto Evandro Chagas, em Belém, é uma referência mundial em doenças tropicais. Associado à universidades estrangeiras, realiza pesquisas sobre leishmaniose, hepatite, gripe, papilovírus e herpes. É um centro de excelência na Amazônia. "Acho que a ciência no Brasil só não está pior" — disse o diretor Jorge Fernando Travassos da Rosa à SUPER — "porque existe um grupo de cientistas abnegados, com objetivos claros, que, mesmo com poucos recursos, continuam trabalhando. Muitos já saíram do Brasil, mas alguns ficam, teimosamente".
Fundado em 1900, sob a direção de Oswaldo Cruz, o Instituto Soroterápico Federal mudou-se, em 1903, para um prédio novo, em estilo mourisco no subúrbio de Manguinhos, no Rio. Cinco anos depois virou Instituto Oswaldo Cruz.. É um dos maiores centros de investigação de doenças tropicais e biologia molecular do mundo. Transformado em Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 1970, tem 1 693 pesquisadores e é o maior produtor brasileiro de vacinas contra febre amarela. Foi o primeiro a isolar o vírus HIV no Brasil. Para o diretor, Dr. Carlos Morel, o Brasil tem que investir em ciência: "ao contrário dos anos trinta, quando o aço e o petróleo eram estratégicos, o que interessa hoje é o conhecimento científico e tecnológico".
Construído na antiga Fazenda Butantan, em 1901, o Instituto Serumtherápico assumiu o nome do lugar em 1925. Hoje, o Instituto Butantan é o maior fabricante mundial de soro e o maior produtor de vacinas do Brasil: são 24,2 milhões de doses contra tétano, difteria, tuberculose, cólera e gripe. Tem 150 pesquisadores e faz pesquisa de base e aplicada, desde a vacina contra Hepatite B a analgésicos extraídos do veneno da cascavel. Sua coleção de animais peçonhentos é atração turística em São Paulo. O diretor Isaías Raw disse à SUPER que "uma das pesquisas mais importantes atualmente é uma nova vacina contra a coqueluche".
Depois de estudar na Europa e dirigir um hospital no Hawai, Adolfo Lutz (RJ, 1855-1940) assumiu, em 1893, a direção do Instituto Bacteriológico de São Paulo — que, em 1940, viraria Instituto Adolfo Lutz. Especialista em lepra, realizou trabalho pioneiro sobre os mecanismos de ação do cólera, da febre amarela, do tifo e da malária. Pesquisou entomologia médica e zoologia no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, e viajou pelo país todo investigando condições de saúde. Deixou extensa obra sobre doenças epidêmicas e endêmicas brasileiras.Vital Brazil (MG, 1865-1950) trabalhou no Instituto Bacteriológico de São Paulo, em 1891, ao lado de Adolfo Lutz. Em 1895, mudou-se para Botucatu, onde atendia muitos camponeses mordidos por cobras. Num laboratório improvisado descobriu que o soro antiofídico deveria ser específico: para cada espécie de cobra, um tipo de soro deve ser usado. Foi o primeiro diretor do Instituto Butantan e, em 1919, fundou o Instituto Vital Brazil, em Niterói, para produzir vacinas.Bóris Vargaftig (Buenos Aires, 1937, naturalizado) comanda uma equipe do Instituto Pasteur, em Paris, que investiga alergias respiratórias. Provou, em 1989, que a molécula PAF (sigla em inglês para "Fator Ativador de Plaqueta") desencadeia crises asmáticas. Se descobrir uma droga "antiPaf", a asma poderá ser controlada. Vargaftig disse à SUPER que, "no exterior, a ciência brasileira é vista como promissora. Em geral, ela é constituída por cientistas bem formados, mas carentes de uma política científica que dê apoio material coerente e constante".
Prêmio Javits de Investigação Científica do Congresso dos Estados Unidos em 1991, Édson Xavier de Albuquerque (PE, 1936) está na ponta das pesquisas mundiais sobre o mal de Alzheimer. Chefe de um sofisticado laboratório da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, promove pesquisas interdiciplinares de genética, oncologia, neurobiologia, farmacobiologia molecular, metabolismo hepático e toxicologia. Seu objetivo: deter o estrago da doença no cérebro.
Uma das maiores autoridades mundiais em malária, Luiz Hildebrando (SP, 1930) é chefe da Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur, em Paris. Há dez anos dedica-se à descoberta da vacina antimalária com a ajuda da Biologia Molecular e da Engenharia Genética. É bom que ela venha logo. Está havendo uma escala de incidência de malária no Brasil: são 120 000 novos casos por ano, a maior parte na Amazônia. Hildebrando é otimista: "Até o final do século teremos uma vacina eficaz contra a doença".
A vacina contra a malária também poderá surgir das pesquisas do casal Vitor (SP, 1928) e Ruth Nussenzveig (Áustria, 1828, naturalizada), na Universidade de Nova York. A dupla está nos Estados Unidos desde 1963. Um protótipo, feito com proteínas dos parasitas injetados no sangue pela mordida do mosquito infectado, já foi testado, com sucesso parcial. Outro protótipo começará a ser testada este ano. "A malária é a doença tropical que infecta mais gente no mundo: só crianças, são 1 milhão por ano", disseram à SUPER.
Estudando magnetismo, Sérgio Mascarenhas (1928, RJ) criou um novo método de datação arqueológica. Seu conceito de bioeletreto mostrou que as grandes moléculas orgânicas, como o DNA, têm pólos elétricos opostos nas extremidades. Fundador do Instituto de Física e Química da Universidade de São Carlos, acha que é preciso estimular novos talentos. "Devemos privilegiar os aspectos sociais da ciência, atraindo os jovens e dando-lhes condições de trabalhar", disse à SUPER.
O físico José Goldemberg (1928, RS) criou métodos para investigar as reações entre a luz e os núcleos atômicos e para calcular a forma desses núcleos. É um dos maiores especialistas brasileiros em energia, desde a produção até o consumo e as fontes alternativas. Foi reitor da USP e Ministro da Educação, em 1992, no governo Collor. Considera necessário investir mais em ciência. "Embora há cinco anos se fale em dobrar as verbas, elas continuam no patamar de 0,7% do PIB", disse à SUPER.Sérgio Machado Resende (1940, RJ) estudou as propriedades magnéticas de substâncias, demonstrando que o valor do campo magnético pode variar arbitrariamente, caracterizando um estado de caos. Em 1972 criou o primeiro grupo de Física na Universidade Federal de Pernambuco. Na sua opinião, a ciência brasileira está pronta para dar um grande salto: "Já está produzindo conhecimento em quantidade suficiente para empurrar o desenvolvimento tecnológico do país".
Não é pequena a contribuição de Oscar Sala (1922, Itália). Mas de tudo que fez, considera a ajuda à formação de novos pesquisadores o mais importante. "Acho que formei pelo menos 100, em meus cinqüenta anos de trabalho". Suas pesquisas com raios cósmicos foram decisivas para análises posteriores das partículas subatômicas. Instalou no Instituto de Física da USP o Péletron, um acelerador de partículas que quebra os núcleos dos átomos para que se possa descobrir sua composição.José Leite Lopes (1918, PE) desenvolveu idéias pioneiras sobre as forças que atuam nos núcleos atômicos. Em 1956, conseguiu estimar a massa das partículas que carregam tais forças, identificadas só nos anos 80. Professor da UFRJ e da Universidade Louis Pasteur, em Estrasburgo, França, acha que "existe um certo elitismo nos altos escalões do governo ligados à formulação da política científica. Eles deveriam voltar pelo menos um dos olhos para o ensino básico, que é ruim".
Em 1947, Cesare Lattes (1924, PR) participou da experiência que provou a existência dos mésons-pi, partículas do núcleo dos átomos, que deu o Prêmio Nobel da Física ao seu colega Cecil Powell. Em 1948, na Califórnia, produziu artificialmente mésons-pesados, desenvolvendo a física de partículas elementares. Em 1951, ajudou a criar um laboratório de raios cósmicos no pico de Chacaltaya, na Bolívia. Estimulou as vocações de gerações de físicos brasileiros. Aposentado pela Unicamp, vive em Campinas.
Manifestações da chamada força fraca, descoberta pelo físico italiano Enrico Fermi, eram observadas em diversos tipos de desintegração de partículas subatômicas. Junto com o americano John Wheeler, Jaime Tiomno (1920, RJ) provou que, em todos os casos, se tratava da interação fraca, uma das quatro forças fundamentais do Universo. Tiomno foi professor do Instituto de Física da USP e ajudou a reformar o Instituto de Física da Universidade de Brasília.Moyses Nussenzveig (1933, SP) explicou matematicamente o espalhamento de luz que constitui o arco-íris e a decomposição de cores próxima à sombra dos objetos que forma a auréola. Trabalhou para a Nasa, a agência espacial americana. Desenvolveu pinças óticas que utilizam luz de laser para manipular in vivo microestruturas biológicas. "É preciso dar mais atenção à Física experimental, mais atrasada do que a teórica, pois os equipamentos custam caro", disse à SUPERJacques Danon (SP,1924 - RJ, 1989) ajudou Irene Joliot-Curie a aprofundar as descobertas sobre radioatividade, em 1947, no Centro Nacional da Pesquisa Científica de Paris. Foi um dos especialistas que decifrou o Efeito Mössbauer, um tipo de emissão de luz pelo núcleo atômico de um metal. Publicou 170 trabalhos sobre radioquímica e eletroquímica. Dirigiu o Departamento de Química Nuclear do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
Em 1938, quando era estagiário da Universidade de Cambridge, Marcelo Damy (1914, SP) aperfeiçoou o Contador Geiger, aparelho medidor de radiação, aumentando a velocidade do seu funcionamento 1 000 vezes, da escala de milissegundo para a de microssegundo. Em 1949, foi responsável pela construção do primeiro acelerador de partículas brasileiro, o Bétatron, no Instituto de Energia Atômica da USP, que ajudou a fundar. Foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Vive no Rio de Janeiro.Newton da Costa (PR, 1929) inventou a lógica paraconsistente, cuja característica é admitir informações contraditórias. Programas de computador, como os que fazem diagnóstico de doenças, usam essa lógica capaz de oferecer uma resposta correta mesmo a partir de informações contraditórias. Para o ex-professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP, em algumas áreas o Brasil faz ciência de primeira linha. "Mas é preciso investir mais na educação, pois o nível cultural da população é baixo".
Por seu empenho em modernizar a Matemática, disseminando os conceitos avançados da sua época, Lélio Gama (RJ, 1892 - 1981) é reconhecido como um pioneiro. Realizou pesquisas avançadas sobre geometria e gravimetria. Fez o primeiro mapa do valor da força gravitacional das regiões brasileiras. Estudou o movimento do pólos e as flutuações do magnetismo terrestre. Foi diretor do Observatório Nacional e o primeiro diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).
Ao estudar equações que descrevem superfícies geométricas, Maurício Peixoto (PE, 1921), também do IMPA, demonstrou uma propriedade importante delas: a estabilidade estrutural. É possível mudar uma equação sem que o resultado final se altere. Peixoto é otimista quanto à política científica do Brasil: "Não vejo necessidade de mudá-la, pois está funcionando esplendidamente. Aliás, todo o país vai bem", disse à SUPER.Jacob Pallis (MG, 1940), atual diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) do Rio de Janeiro, mostrou que as equações que descrevem sistemas dinâmicos como órbitas de planetas, são estáveis: se um planeta sai do rumo, tende a voltar a ele. O mesmo pode-se dizer das equações: se mudarmos uma de suas variáveis, mantêm os mesmos resultados. Segundo Pallis, "o Brasil tem tudo para dar um salto à frente, só não pode faltar apoio do governo".
Professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do IMPA, Leopoldo Nachbin (PE, 1922 - RJ, 1993) investigou métodos para modificar funções matemáticas, criando uma estrutura teórica que viabiliza cálculos numéricos complicados. Nela, uma função complexa é resolvida pela aproximação gradativa do resultado com o emprego de polinômios semelhantes à função, bem mais simples.Mário Schenberg (PE, 1916 - SP, 1990) estudou com Fermi e Pauli, na Europa. Descobriu o mecanismo de explosão das supernovas, mostrando, junto com o físico George Gamow, que elas jogavam energia fora na forma de neutrinos. Batizaram o efeito de "Urca", pela facilidade com que se perdia dinheiro no então Cassino da Urca, no Rio. Também estudou a evolução das estrelas e criou o critério Schenberg-Chandrasekhar para avaliar suas idades. Foi crítico de arte plásticas e deputado federal eleito em 1945.José Antonio de Oliveira Pacheco (SP, 1942), diretor do Observatório de Nice, na França, foi um dos primeiros a apontar que os raios cósmicos não têm origem extragaláctica, mas vêm da própria Via Láctea. Pacheco disse à SUPER que "as áreas em que o Brasil tem maior reputação são as biológicas. Mas a Física, hoje, começa a lidar com demandas brasileiras de aplicações práticas, como a óptica, as cerâmicas e o magnetismo. Com isso, vem obtendo destaque".Abrão de Moraes (SP, 1915 - SP, 1970) foi um dos criadores da Astronomia Brasileira. Professor de mecânica celeste, formou a primeira geração de astrônomos do país, dirigiu e dinamizou o Instituto Astronômico e Geofísico da USP. Em 1957, a partir da trajetória de satélites artificiais e das revelações russas sobre a viagem do satélite Sputnik, desenvolveu equações matemáticas para calcular a forma exata da Terra.
Em 1989, no Observatório Nacional do Rio, Luis Nicolacci (1950, RJ) chefiou uma equipe internacional que realizou o mais completo mapeamento do céu já feito. Localizaram 5 000 galáxias, até uma distância de 400 milhões de anos-luz. Suas pesquisas indicaram que há imensos vazios no Universo e locais onde as galáxias se agrupam. Na sua opinião, "a vida do cientista no Brasil é muito mais difícil do que deveria ser. Não há consciência do valor da ciência para a sociedade".João Steiner (1950, SC) ficou famoso, em 1980, ao consertar, em Nova Iorque, o telescópio orbital Einstein, da Nasa. Identificou boa parte dos quasares conhecidos na década de 80 e formulou a teoria de que mesmo as galáxias comuns têm um buraco negro no centro. Vice-diretor do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, acha que o investimento em ciência no Brasil não precisa ser maior, "mas precisa ser mais regular". Além disso, "temos que dar atenção à parte experimental, pois nossa tradicão é voltada para o lado teórico".Giuseppe Cilento (Itália, 1923, naturalizado - SP, 1994), professor do Instituto de Química da USP e da Unicamp, teve reconhecimento internacional depois de produzir emissão de luz pelo excitamento químico de elétrons do sistema biológico. Sua descoberta mostrou que as células podem realizar processo fotoquímico sem aplicação de luz externa, a fotobiologia sem luz. Com essa descoberta pode-se, por exemplo, diferenciar o tipo de leucemia mielóide, antecipando seu tratamento específico.
Criar modelos que imitam células vivas para compreender de modo prático seu funcionamento é a empreitada do bioquímico Hernan Chaimovich (Chile, 1939, naturalizado), especialista em mecanismos de reação química dos sistemas biológicos. Chefe do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP (um dos mais produtivos do Brasil), acha que "no Brasíl o apoio à ciência é imprevisível. Falta uma visão estratégica de longo prazo. Não é uma questão de muita ou pouca grana, mas de levar a sério uma política científica".
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cientistas descobrem novas espécies de plantas e de animais no Peru



Cientistas anunciaram nesta quinta-feira (19) a descoberta de quatro espécies, uma de planta e três de animais, nas florestas próximas à Cordilheira Branca, no Peru. Três das espécies encontradas são comprovadamente novas para a ciência: uma planta do altiplano andino (Senecio sanmarcosensis) e dois besouros (Eriopis canrash e Cycloneda andresii). Os cientistas encontraram também um pequeno rato (Akodon sp.nov), que provavelmente é uma nova espécie.

As descobertas foram feitas durante uma série de expedições realizadas na região entre 2005 e 2008, lideradas pela Associação de Ecossistemas Andinos (Ecoan, da sigla em espanhol), em parceria com a ONG Conservação Internacional.O pequeno roedor do gênero Akodon mede menos de nove centímetros de comprimento e tem uma cauda de 6,5 centímetros. Ele vive entre 2.880 e 4.733 metros acima do nível do mar e é encontrado somente na região de Ancash, no noroeste do Peru. Esse ratinho desempenha um papel importante no controle de insetos e na dispersão de sementes no ecossistema onde vive.Outra descoberta relevante foi a da planta Senecio sanmarcosensis, que faz parte da vegetação dos pântanos do altiplano andino. Essa vegetação purifica a água que vem da montanha e atua como seu reservatório. A planta desabrocha entre maio e julho e é encontrada somente em três lugares da região de Ancash, todos acima dos 4.500 metros de altitude.A Ecoan acredita que essa planta deveria ser incluída na categoria de "Quase Ameaçada", conforme os critérios da Lista Vermelha da União Mundial para a Natureza (IUCN, da sigla em inglês), uma vez que só é encontrada em poucas áreas que sofrem pressões, como as do pastoreio intensivo. Também fazem parte das descobertas anunciadas hoje dois besouros, o Eriopis canrash e o Cycloneda andresii, que controlam as populações de pulgões e de ácaros, responsáveis pela destruição de plantações importantes para a sobrevivência dos povos daquela região.

Gordura boa

Além da indesejada gordura branca, cuja função é acumular energia no corpo, o organismo também produz a gordura marrom, que auxilia a queima de calorias ao gerar calor corporal. Dois grupos de cientistas, em estudos independentes, acabam de identificar fatores que regulam a formação da "boa" gordura marrom.
De acordo com os autores das pesquisas, que foram publicadas na revista Nature, as descobertas poderão ajudar a desenvolver novas terapias contra a obesidade.
Proteína morfogenética óssea 7
O grupo coordenado por Yu-Hua Tseng, do Centro de Diabetes Joslin, da Escola de Medicina Harvard, mostrou que a proteína morfogenética óssea 7 (BMP7, na sigla em inglês) - conhecida por seu papel na indução do crescimento dos ossos - também pode promover a formação de gordura marrom.
Já Bruce Spiegelman, do Instituto do Câncer Dana-Farber, também nos Estados Unidos, e colegas revelaram que o gene PRDM16 regula a transformação de células em músculos ou gordura marrom. A ausência do gene leva a célula a se tornar músculo, enquanto o seu excesso faz com que ela se torne gordura marrom. Enquanto isso, a gordura branca se forma a partir de um tipo celular distinto.
Caminho para combater a obesidade
A revista publicou ainda comentário de Barbara Cannon e Jan Nedergaard, da Universidade de Estocolmo, Suécia, sobre os trabalhos. "Os dois estudos nos aproximam mais um passo do objetivo de promover a linhagem de gordura marrom como potencial caminho para combater a obesidade", destacaram.
Na pesquisa realizada pelo grupo de Tseng, os cientistas identificaram, em testes laboratoriais com camundongos, que a proteína BMP7 leva células precursoras a originar células de gordura marrom maduras.
"Enquanto as células de gordura branca correspondem à forma 'convencional' de gordura, cuja função é armazenar energia, a gordura marrom tem o papel de queimar calorias ao gerar calor corporal. Essas células de gordura marrom desaparecem, em sua maioria, do corpo de humanos adultos, mas suas precursoras permanecem no corpo", explicou Tseng.
Genes que controlam a criação de gordura
Em 2005, uma pesquisa do mesmo grupo levou à descoberta de genes que controlam a criação de células precursoras de gordura marrom. Outro trabalho mais recente localizou grupos de células de gordura marrom dispersos entre fibras musculares de camundongos.
O estudo atual identificou a BMP7 como a proteína capaz de induzir a formação e função das células de gordura marrom. Ao introduzir a proteína em camundongos, usando um adenovírus como vetor, os cientistas observaram um aumento do desenvolvimento dessa gordura. Em outro experimento, os camundongos que desenvolveram mais gordura marrom ganharam menos peso que os outros.
De acordo com os cientistas, o trabalho promoveu avanço em uma questão fundamental: saber o que controla o desenvolvimento de depósitos de gordura. Os autores concluíram que diferentes membros da família de proteínas BMP, que regulam a formação de órgãos durante o desenvolvimento embrionário, determinam a formação de gordura marrom ou branca.
Transformando músculos em gordura
A pesquisa feita por Spiegelman e colaboradores mostrou que o já conhecido gene PRDM16 regula a criação de gordura marrom a partir de células musculares imaturas. O trabalho também determinou que o processo é uma rua de mão dupla: "desligar" o PRDM16 nas células de gordura marrom pode convertê-las em células musculares. No entanto, essa reversão não tem aplicações práticas.
Segundo Spiegelman, a principal surpresa é que as células precursoras de músculos, conhecidas como "células-satélite", são capazes de originar as células de gordura marrom sob o controle do PRDM16.
"O estudo confirma que o PRDM16 é o regulador-mestre do desenvolvimento de gordura marrom. Isso levará a prosseguir com a pesquisa para descobrir se drogas que estimulam o PRDM16 em camundongos - e potencialmente em humanos - podem converter gordura branca em gordura marrom, a fim de tratar a obesidade", afirmou.
Outra estratégia, segundo ele, poderia ser o transplante de células de gordura marrom em pessoas com sobrepeso, a fim de desencadear o processo de queima de calorias. "Temos uma evidência convincente de que o PRDM16 pode transformar outras células em gordura marrom", disse.

Cientistas descobrem nova subespécie de sagui na Amazônia



RIO - Pesquisadores descobriram uma nova subespécie de macaco numa parte remota da Floresta Amazônica, disse um grupo de conservação da vida selvagem com sede nos Estados Unidos na terça-feira. O macaco recém-descoberto foi visto pela primeira vez por cientistas em 2007 no Estado do Amazonas e é parente do sagui-de-cara-suja, conhecido pelo dorso marcado, disse a Wildlife Conservation Society (WCS). O macaquinho, que é basicamente cinza e marrom e pesa 213 gramas, recebeu o nome de sagui-de-cara-suja de Mura, numa homenagem à tribo indígena de Mura, da região da bacia dos rios Purus e Madeira, onde a nova subespécie foi encontrada. Ele tem 24 centímetros de altura e uma cauda de 32 centímetros. "Esse macaco descrito recentemente mostra que mesmo hoje há grandes descobertas na natureza a serem feitas", disse Fábio Rohe, autor principal de um estudo que confirmou a descoberta, em um comunicado divulgado pela WCS. "Essa descoberta deveria servir de alerta de que ainda há muito a aprender sobre os locais selvagens do mundo, embora os homens continuem a ameaçar essas áreas com destruição." O estudo descobriu que o macaco está sendo ameaçado por projetos de desenvolvimento da região, incluindo uma grande rodovia que atravessa a floresta, que está sendo asfaltada e poderia aumentar o desmatamento.

Cientistas descobrem primeira ave canora asiática em um século

SYDNEY (Reuters) - Uma bizarra ave canora careca foi descoberta em uma região montanhosa do Laos, declarou a entidade ambientalista Wildlife Conservation Society (WCS) nesta quinta-feira. É a primeira vez em mais de um século que uma descoberta deste tipo é feita na Ásia.
Cientistas da WCS e da Universidade de Melbourne, que encontraram a ave, disseram que se trata do único exemplar de uma ave canora calva na Ásia continental, a primeira de uma nova espécie de bulbul - uma família com cerca de 130 espécies - a ser descoberta na Ásia em mais de cem anos.
O pássaro foi apelidado de "bulbul-de-cara-lisa", devido à ausência de plumas na face e em parte da cabeça.
De acordo com os cientistas, o animal visto tem o tamanho de um sabiá, é verde-oliva com o peito claro, o rosto rosado e sem plumas, mas com a pele azulada em torno dos olhos e até o bico, e uma estreita linha de plumas semelhantes a cabelos descendo desde o topo da cabeça.
"É sempre excitante descobrir uma nova espécie, mas esta foi especialmente ímpar porque é a única ave canora calva da Ásia", disse nota assinada por Colin Poole, diretor de programas asiáticos da WCS
O pássaro parece habitar principalmente árvores, e foi achado em uma área de escassa cobertura florestal nos afloramentos rochosos da província de Savannakhet - uma área pouco visitada, mas conhecida por inusitadas descobertas relativas à vida selvagem.
"Sua aparente restrição a um habitat bastante inóspito ajuda a explicar por que uma ave tão extraordinária, com hábitos tão óbvios e um canto distinto passou tanto tempo despercebida", disse Iain Woxvold, da Universidade de Melbourne. Na mesma área, há vários anos, os cientistas descobriram uma nova espécie de roedor, chamado khan-nyou, e um coelho listrado.
A descrição da nova espécie de aves foi publicada na edição de julho da revista Forktail, do Clube Oriental das Aves.

domingo, 9 de agosto de 2009

Cerca de 30% dos cânceres humanos provavelmente estão relacionados à dieta e à nutrição, segundo a Organização Mundial da Saúde. Agora, a principal ‐ e surpreendente ‐ conclusão de artigo publicado em The Journal of the American Medical Association (vol. 293, n. 2, pp. 183-193, 2005) avança no conhecimento da associação entre alimentação e essa doença, apesar de ir na contramão do que tem sido descrito em revistas especializadas e propagado por especialistas: o consumo de legumes, verduras e frutas não diminui o risco do câncer de mama.

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A pintura em cerâmica Tupiguarani


A cultura dos povos indígenas falantes da línguas tupi e guarani é conhecida principalmente pelos relatos de cronistas da época do Descobrimento e dos primeiros tempos da colonização do Brasil. Dos prováveis ancestrais desses grupos, porém, os únicos vestígios arqueológicos são vasilhas e fragmentos de cerâmica, muitas vezes pintados com motivos variados. Um novo e amplo estudo sobre as pinturas aplicadas a essa cerâmica – reunida sob o nome ‘Tradição Tupiguarani’ – revela que não eram apenas simples decoração: na verdade, os desenhos parecem expressar os valores coletivos desses primeiros habitantes do litoral brasileiro.

Quando Pedro Álvares Cabral desembarcou no Brasil, a maior parte do litoral, do Nordeste até o rio da Prata, entre o Uruguai e a Argentina, era ocupada por populações indígenas que falavam línguas tupi (desde a área onde se situa hoje o estado de São Paulo até o atual Maranhão) e guarani (do atual Paraná até o norte da Argentina). Essas línguas eram aparentadas (como o são entre si o espanhol e o português) e as culturas dos seus falantes bastante parecidas.

Os primeiros cronistas – particularmente os protagonistas das lutas entre franceses e portugueses pelo controle da baía de Guanabara – fornecem preciosas informações sobre essas numerosas tribos. Mencionam, entre outras coisas, que as mulheres produziam e decoravam os potes de barro. Essas tribos foram logo dizimadas pelas doenças trazidas pelos europeus e pelas guerras coloniais, e no século 17 tinham desaparecido quase que por completo do litoral central e nordestino.

No final do século 19, os amadores de antiguidades brasileiros e os organizadores dos primeiros grandes museus, como Ladislau de Souza Mello Netto (1828-1894), já tinham identificado como tupi os potes pintados encontrados no litoral de Rio de Janeiro. Mas essas vasilhas estavam mal preservadas, e as cerâmicas então recém-descobertas na ilha de Marajó, no Pará, que se supunha influenciadas por imigrantes europeus supostamente chegados durante a Antiguidade, atraíram toda a atenção dos pesquisadores. Até o final do segundo terço do século 20, apenas o historiador e folclorista Carlos Ott publicou o desenho simplificado de algumas vasilhas encontradas na Bahia.

No final dos anos 60, os pesquisadores do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (Pronapa), dirigido pelos arqueólogos norte-americanos Betty Meggers e Clifford Evans (1920-1981), encontraram numerosos sítios onde apareciam restos de cerâmica decorada, alguns com traços vermelhos ou pretos pintados sobre fundo branco. Tais manifestações foram reunidas sob o nome ‘Tradição Tupiguarani’ – Tupiguarani em uma só palavra, indicando tratar-se de um conceito arqueológico que não corresponde obrigatoriamente aos povos falantes das línguas tupi-guarani (com hífen), embora se supusesse que os autores das peças fossem, ao menos em parte, ancestrais desses povos. As datações radiocarbônicas apontavam que os artefatos teriam entre 1.500 e 500 anos.

Como os sítios estavam em geral muito destruídos, os cacos eram pequenos e os desenhos pouco legíveis. Além disso, o Pronapa, por visar apenas a levantamentos extensivos, não previa análise intensiva de sítios nem grande escavações, que talvez tivessem permitido encontrar locais ainda intactos e materiais bem conservados. Arqueólogos influenciados por perspectivas francesas, como Maria Beltrão, Luciana Pallestrini, Lina Kneip (....-2002), Sílvia Maranca e José Luiz de Morais, chegaram a escavar estruturas de habitações, mas não se interessaram especialmente pela cerâmica.

Dessa forma, e apesar de um artigo seminal do etnólogo Desidério Aytai (1905-1998) que não chegou ao conhecimento da maioria dos arqueólogos, não se tentou um estudo sistemático das formas decorativas, embora importantes trabalhos de síntese tenham sido realizados pelos arqueólogos José P. Brochado e Maria Cristina M. Scatamacchia sobre a difusão da cultura Tupiguarani e as formas das vasilhas, assim como uma nota da arqueóloga Fernanda B. Tocchetto sobre uma possível relação entre motivos geométricos e mitologias guarani.

Em 2000, a Missão Arqueológica Francesa e o Setor de Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais decidiram iniciar um programa de estudo da cultura Tupiguarani no estado, em colaboração com a equipe que iniciava um programa de resgate arqueológico no vale do rio Doce, entre os municípios de Resplendor e Aimorés, onde um consórcio encabeçado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) construía uma represa. A reunião de recursos de origem privada com um projeto científico tornava possível realizar um programa que unisse interesses econômicos e culturais (resgate do patrimônio cultural imposto pela lei) e acadêmicos (os trabalhos não visariam apenas a simples recuperação do material, mas seriam também direcionados por questões inerentes à pesquisa científica, como organização interna dos sítios, interpretações sociológicas, análises funcionais e estilísticas dos vestígios materiais e outras.

Estávamos inicialmente interessados em estudar as modalidades de ocupação do espaço pelas populações tupi-guarani em áreas-teste (em algumas microrregiões de Minas Gerais) e a organização interna das aldeias (cuja estrutura estivesse mais bem preservada). No entanto, o salvamento – pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, em Conceição dos Ouros (MG) – de uma vasilha intacta com extraordinária decoração nos levou a abrir uma nova linha de estudo sobre as decorações pintadas sobre cerâmica e a visitar os museus e coleções antigas espalhados entre Natal (RN) e Porto Alegre (RS), onde abundam cacos pintados e vasilhas com traços quase apagados.

Aos poucos, envolvemos um grande número de arqueólogos em uma pesquisa sistemática sobre a cultura Tupiguarani no Brasil inteiro. Arqueólogos, químicos, físicos, etnólogos e até técnicos da polícia científica – ligados a 20 instituições brasileiras, argentinas e uruguaias – aceitaram colaborar, de forma inédita, na preparação de uma obra coletiva, que deve fazer um balanço dos conhecimentos e abrir novas perspectivas.
Este artigo apresenta um dos pontos da cultura tupiguarani cujo estudo ficou sob nossa responsabilidade.